FRANCISCO MADEIRA LUIZ (1933-2020) - TESTEMUNHO DE UM COMPANHEIRO CHAMADO MANUELA FERREIRA

           

                                                    

      Para mim, o Madeira Luís a quem me apresentaram no Inverno de 1988, em Lisboa, passou há dias a ser, simplesmente, de repente, o Francisco. E já passaram quase quatro meses... Quatro meses, já? Como...?

      Levo tempo a começar a fazer um luto e ainda mais a tê-lo concluído. Sorrio ao lembrar o tempo imenso que levei a ousar tratar por «tu» aquele intelectual mais velho, com ademanes de príncipe, que eu embaracei quando disse que, em Coimbra, tratarem-me por «você» era como atirarem-me uma pedra à testa... o que mais o terá determinado a operar a mudança, rápida e definitiva que urgia, na minha forma de se lhe dirigir. Como em (quase) tudo, foi bem decidido.

      Muito mais doloroso foi ver-me privada dos telefonemas de domingo de manhã e dos nossos almoços nos restaurantes das ruas estreitas da baixa de Coimbra, quando o Francisco passou a andar em transumância entre Lisboa e Aveiro. Corriam as ideias, os sucessos e os échecs, de quanto valia a atenção de quem anda no mundo com os olhos abertos e, também, com eles postos nos olhos dos nossos semelhantes que valem a pena. Os nossos repastos eram mais longos que as bodas de outrora. E desde logo deixavam, à despedida em Coimbra B, um gosto a demasiado pouco.

     Amigo verdadeiro, único companheiro macho e meigo sem outras implicações, eu sabia que muito me faltaria o Francisco, mas não ao ponto em que este buraco negro me tortura. Ingénua, carente, sem conselho, «despedi-me» por ocasião de um five o´clock tea outonal que a preciosa Virgínia providenciou na casa dele em Algés e, depois, em face das notícias que iam chegando, passei todos os anos do Marginal a falar com ele, a considerar as suas prováveis respostas, a decidir da forma como a coisa se decidiria se não houvesse de imediato unanimidade, como se o tivesse ali mesmo, perto de mim, presente a toda a hora sob a forma do seu holograma.

     E agora, Francisco? E agora, Manuela? Não ouses desertar o meu ser. Eu vou penar ainda muito tempo, mas conto ir fazê-lo, de forma produtiva, onde estarei mais perto de tudo o que a ambos interessa  e que é parte da obra que estava previsto ser feita a dois. Nada mais soubeste de mim, mas vou encomendar ao meu coração de passarinho os anos de que preciso para fazer sair a publicação In memoriam dos cinco mil exemplares de vidro que glanaste. («La Glaneuse», lembras-te de termos filosofado em torno desse filme, que vimos em lugares e datas diversos? Completamente por acaso!!)

       A verdade é que não concebo, como ponto final ideal da existência, outra tarefa em que possa pôr, nem maior interesse, nem mais afecto que aquele não pude dar aos meus netos. Não era por isso que desabafavas, com a Virgínia, depois de nos termos visto pela última vez, em condições normais,  em Aveiro, em Setembro de 2009, «A Manuela faz-me tanta falta! Ai, a falta que me faz a Manuela!»?

      Francisco, uma pessoa como tu não tem que pagar tão atrozmente cara a passagem para a Terra da Verdade. Não foi justo. Eras um crente. Eu espero ver a coisa amenizada, e tu sabes do que falo.

      Requiescat in pacem

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